sábado, 9 de março de 2013

IL MARE

 

21-04-11 – Porto Seguro – 12h 24m


Para mim, as férias são sempre um tempo para ressuscitar antigas paixões. Escrever, por exemplo. Drummond dizia que é sempre possível deixar de escrever. Mas hoje eu realmente não consigo resistir.

O mar, o sol, a piscina, a distância das preocupações, esta solidão gostosa, o silêncio, a privacidade, tudo isso me incita a escancarar as represas de palavras timidamente encolhidas, abandonadas dentro de mim. Fluem a céu aberto. São enchentes de emoção que atropelam violentamente tudo o que encontram à sua frente. Depois que me atravessam, como a bonança da satisfação me domina. Pronto – sou outra. Novinha.

Não sei bem o que perdi na Bahia. Aliás, no mar. Só sei que toda vez que o vejo, acho. Tenho uma coisa com a água. Estou começando a crer que é para lá que vai essa parte do meu ser que despejo sem culpa neste cenário tão ecologicamente correto e incapturável por foto. O mar absorve tudo, tudinho mesmo. Tudo o que deveria ter sido dito e até gritado, tudo aquilo que o silêncio e a polidez aprisionaram.

Descartada a podridão, aflora uma parte de mim da qual costumo me esquecer.  É aquela que pensa que é gênio e que tem mil planos para dominar o mundo. Que nada teme, exceto compartilhar do mesmo destino daquela estátua de sal que encontrou pelo caminho.  

É nessa hora que a mágica acontece. Calo-me por um instante. Visito-me. Daqui pra frente, poucos me reconhecerão. Menos pessoas ainda me entenderão.  Começam a faltar-me protocolos, etiquetas, pontos, vírgulas e acentos. Sobra a essência. Fico transparente, mas jamais invisível. E eu gosto do que vejo.


Um comentário: