sábado, 9 de março de 2013

CAMINHO


CAMINHO
Cale-se a minha boca
Sequem-se os meus olhos
Escape-me a vontade de sorrir
Esfrie-se o meu sangue latino
Mas que eu não me esqueça
Jamais
De onde parti
E qual o meu destino


Tremam-me os joelhos
E as mãos
E o corpo inteiro
Mas que eu saiba
Sempre
Por que vagueio


Cansada das voltas
Dos altos e dos baixos
Preferindo as rotas
Obviamente retas
Caminho


Desentorpecendo-me
Lentamente
De químicos inebriantes
Com ou sem
Dor ou dó
Caminho


Vista fita no adiante
Esquivando-me das laterais
Ignorante do idioma cantado
Por tantas vozes ao meu redor
Escuto uma só
Que fala e repete
E caminho


E não me importa
Se haverá rios, pontes, nascentes
Montanhas, desertos ou o quê
Não me interessa
Sol ou chuva
Calor ou frio
Companhia ou solidão
Nada me apetece
Apenas caminho


Sem olhar pro chão
Sem pensar em vão
Só para chegar
Caminho.

IL MARE

 

21-04-11 – Porto Seguro – 12h 24m


Para mim, as férias são sempre um tempo para ressuscitar antigas paixões. Escrever, por exemplo. Drummond dizia que é sempre possível deixar de escrever. Mas hoje eu realmente não consigo resistir.

O mar, o sol, a piscina, a distância das preocupações, esta solidão gostosa, o silêncio, a privacidade, tudo isso me incita a escancarar as represas de palavras timidamente encolhidas, abandonadas dentro de mim. Fluem a céu aberto. São enchentes de emoção que atropelam violentamente tudo o que encontram à sua frente. Depois que me atravessam, como a bonança da satisfação me domina. Pronto – sou outra. Novinha.

Não sei bem o que perdi na Bahia. Aliás, no mar. Só sei que toda vez que o vejo, acho. Tenho uma coisa com a água. Estou começando a crer que é para lá que vai essa parte do meu ser que despejo sem culpa neste cenário tão ecologicamente correto e incapturável por foto. O mar absorve tudo, tudinho mesmo. Tudo o que deveria ter sido dito e até gritado, tudo aquilo que o silêncio e a polidez aprisionaram.

Descartada a podridão, aflora uma parte de mim da qual costumo me esquecer.  É aquela que pensa que é gênio e que tem mil planos para dominar o mundo. Que nada teme, exceto compartilhar do mesmo destino daquela estátua de sal que encontrou pelo caminho.  

É nessa hora que a mágica acontece. Calo-me por um instante. Visito-me. Daqui pra frente, poucos me reconhecerão. Menos pessoas ainda me entenderão.  Começam a faltar-me protocolos, etiquetas, pontos, vírgulas e acentos. Sobra a essência. Fico transparente, mas jamais invisível. E eu gosto do que vejo.